Cheira-me a mudança, a novidade, a descoberta. E sei que a frase que um dia me disseste está prestes a tornar-se real: “Em Lisboa vais mudar e fazer coisas novas, mas é em Coimbra que és feliz”.

Mudam-se os tempos, perdem-se os passeios sonhadores. Bem-vinda responsabilidade.

Quase que tenho raiva dela. Quase que lhe quero pagar na mesma moeda. Quase que anseio pelo seu arrependimento.

Constato então que não sou uma filha normal. Nestes momentos, sou um bicho sem coração.

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Quando comecei a escrever prometi que seria para sempre.

Quando disse que queria ser escritora, disse-o da boca para fora, sem saber que já era verdade.

Já não consigo abandonar as teclas de um computador, mas sonho conseguir escrever em cadernos molleskine, sentada num banco de jardim.

Sei que poderia escrever um romance, daqueles que nunca são publicados, mas na hora de escrever a mão contrai-se e as palavras escapam-se, como se o papel lhes provocasse dor.

Se escrevesse todas as coisas em que penso e sonho, seria considerada uma louca sem remédio.

Admiro as palavras escritas pelos outros enquanto das minhas mãos vejo apenas deserto.

Tenho saudades do tempo em que escrevia e pensava com fervor.

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Tenho o ócio à flor da pele e o desejo escondido num canto que já não existe.

[Ela pensa que falo com as massas mas se o faço é apenas comigo.]

Se já não existes, se já morreste, se não vales nada, porque é que ainda te quero escrever cartas? É como falar com um fantasma e querer contar toda uma vida. Dar-se a conhecer plenamente, além do corpo. Esquecer o corpo tapar os olhos matar a mente. O que existe para lá do corpo? Nunca saberemos.

Descobri que a televisão é um mundo oco. Olho para lá e é como se não visse, é como se não pensasse.

Leio a última entrevista do Mário Cesariny e penso que já não existem homens assim. Já ninguém faz manifestos a gloriarem a luta e a revolução – tudo se subjuga a tudo, nada existe além do normal. Era o tempo dos jornais, do papel verdadeiro. Eu quero ser jornalista nesse tempo. Será que posso?

Vivemos num século puramente tecnológico – e nem imaginas quantas vezes me apeteceu escrever numa máquina de escrever ou num molleskine.

Não sei como consegui passar por estes dois poemas, senti-los imensamente na pele e agora não ter nenhuma palavra, zero de literatura.

Tenho um imenso medo da coisa mais absurda do mundo – elas, meu caro, não deverão ter medo.

Gostava de saber para que me serviste, para lá da coisa absurda que é um corpo, a paixão ou o desejo.

A língua italiana é uma das mais belas do mundo, tal como a língua francesa. Juntas, são o paraíso. As canções e os textos ganham outra dimensão. Mas o português não se esquece. Apenas tive saudades dele lá fora – desejei-o, amei-o, queria ouvi-lo e não podia. Odiei o esloveno. E quando fui a Itália tive o desejo saciado – sobretudo do sol, do tempo, do mar.

Hoje senti-me presa na minha própria casa, ainda que ninguém me tenha agarrado ou proibido de alguma coisa (acho que o meu problema é ter medo da proibição, de não conseguir voar. Alguma vez te proibiram de voar?)

Foste o meu primeiro canalha – o primeiro que não valeu mesmo nada, nada. Mas foste também o que me fez crescer.

Vou deixar de escrever palavras soltas sobre ti. Acho que acabei de descobrir para que serviste.

Todos os profissionais me dizem que para se ser jornalista tem de se ler muitos jornais. Sim, é verdade. Não podemos ser seres invisiveis e cegos no meio em que queremos trabalhar. Mas eu não leio assim tantos jornais quanto isso. Prefiro aprender o mundo, ouvir e saborear as coisas que me rodeiam. Às vezes o jornalismo não tem a capacidade de nos absorver e de nos fazer vaguear.

O que nos faltou? A imensidão do tempo, a plenitude do amor, a vontade de continuar o que ainda estava para começar. Faltou criar a palavra nós e guardá-la numa fotografia, o querer mais, penetrar na distância e nos tempos cruzados e ficarmos.

E agora não sei o que hei-de fazer com os teus restos. Porque não consigo deitá-los fora como me deitaste a mim.

No dia do meu vigésimo primeiro aniversário, só me apetece perguntar, sem esperança de obter resposta:

“Are we human, or are we dancers”?

Com lágrimas invisíveis por baixo do sorriso.

[Chegou ao fim]8Ql9g8zO7k77keqqwyzCI4rGo1_400

O teu silêncio causa-me a mais absoluta das dores. Tira-me o sono perfura-me o peito. O teu amor de fingir não me traz paz.

Quando passo na rua e te encontro por acaso, após um dia inteiro em que as nossas palavras mal se cruzaram. E não consigo, não quero falar contigo. Sinto que já não te posso recuperar e que, sobretudo, não queres.

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