Março 2009


O mundo contemporâneo vive cansado, em constante movimento. Nunca pára quieto. Muito para além das vidas agitadas, há um constante diálogo no interior dos nossos corpos. E, por vezes, é difícil manter em nós uma perfeita relação entre o corpo e a mente. De repente torna-se difícil pensar com clareza, queremos fugir do quotidiano.

A pintura mostra um corpo que já se abandonou e que apenas podemos imaginar por tímidos contornos. Restaram apenas os moldes das roupas; os músculos vermelhos, cansados de tanto lutar; as veias e as artérias bombeiam o sangue, num sinal claro de que o corpo ainda funciona. Só a mente se encontra muito longe daligil-maia-i1. É como um colete de forças que durante muito tempo guardou todos os medos que habitavam o pensamento, mas que não aguentou mais e, subitamente, explodiu.

Todos os constituintes físicos são abandonados sob um fundo escuro, que denota a solidão que habita a mente; o mistério que o dia-a-dia por vezes representa, sem nos dar as respostas imediatas a dúvidas existenciais; e, ainda, uma busca incessante pela paz de espírito.

No entanto, ainda existe uma saída. As linhas de um azul claro mostram que, apesar da ausência, o corpo ainda está por aqui, algures, tentando encontrar uma resposta para a agitação do espirito. Ainda há hipótese de um regresso. Porque, no fundo, existirão sempre músculos para lutar e veias para bombear o sangue que move o corpo. Mesmo que a mente por vezes páre e exploda. Mesmo que surjam dias em que apetece estar ausente.

[Da análise do quadro "Corpo Ausente", de Gil Maia]

Vi-te e fiquei feliz.

Se escolher jornalismo, escolho uma profissão que é cada vez mais precária e que não me dará emprego com um salário fixo, mas muito provavelmente o desemprego. Se escolher publicidade, escolho precisamente a antítese total do que é fazer jornalismo – anti-propaganda, contra a promoção de interesses, pessoas ou marcas. Escolho ser criativa e dinâmica na promoção de um produto, ao invés de escrever. Acontece que já ninguém vive de escrever, apenas.

A verdade é que não sei se hei-de escolher o coração ou a razão. dsc01788

[Pequenas coisas mudam o mundo] – Pedro Paixão, in PortoKyoto

[O que pertence ao corpo é como um rio, o que pertence à
alma é como um sonho e um vapor: a vida uma guerra e uma
viagem por um país estrangeiro] – Marcus Aurelius

dsc05563

Naquele fim-de-semana, quis sempre regressar ao mesmo lugar e ficar lá durante muitos instantes. Naqueles três dias quis que a velocidade fosse lenta e o movimento quase nulo. De manhã cedo já a cidade despertava nos seus sons, nos seus pequenos rebuliços. Em Ljubljana o comboio esperava por nós.

Soube naquele instante que iria recordar para sempre aquela estação. É como se ainda lá estivesse à espera do comboio, olhando as placas em esloveno,pensando em inglês, falando em português. Olhando as pessoas nas suas vidas normais, de sempre. Para elas a estação será sempre a estação. Nada demais.

No meio da linha de espera, sou como um corpo que gira à volta do sonho. A minha mente sente de tal forma aquele momento que será incapaz de o esquecer. O comboio chega, por fim. Será a viagem da minha vida e ainda não sei. É fascinante estar prestes a viver momentos únicos e permanecer na total ignorância.

Primeiro, uma paragem por Maribor. É sexta-feira de manhã e as pessoas vão de fim-de-semana. Nunca me apercebi que Ljubljana era como Coimbra, que aos fins-de-semana ficava deserta de pessoas que voltavam para as suas casas. Nunca me apercebi que Coimbra será sempre Coimbra, em qualquer lado do mundo. Estará sempre lá, objecto de eternas comparações.

Foi curto o espaço de tempo para a mudança de comboio. Graz, na Áustria, é o nosso próximo destino. De mochilas às costas ousamos descobrir coisas que são apenas fantasias, desejos, realizações. Um dia pensámos que queríamos conhecer aquele lugar e fomos à descoberta.

Graz é demasiado pequena. Da estação ao centro da cidade são alguns passos. Os eléctricos, sempre aqueles eléctricos que invadem os nossos passos na cidade. Percorrem imensas linhas com destinos já traçados. A arquitectura fascina sempre, a dimensão da cidade não importa. É uma mistura fabulosa de um quotidiano normal, por andam os supermercados, os pais com os filhos de mão dada, os mendigos a pedir e pessoas a passear na praça. Um quotidiano que
aprendeu a se inserir na paisagem, no rio, nas cores das casas, naquelas linhas clássicas que nunca aprenderão a tornar-se modernas.

Ao sabor dos tempos. Mas existem coisas que irão durar para sempre. Muito para além de qualquer velocidade.

Regressamos ao comboio. E já não vemos esloveno nas placas de indicação, mas sim a língua alemã. Igualmente
complicada, barulhenta, igualmente isenta de sentidos.

dsc05251

Karlsplatz”, “Wien Sudbanhof” [Estação sul de Viena] percorrem os nossos olhos a pedirem compreensão. Pedimos desculpa, but we are lost in translation*. Completamente. Apesar disso, ousamos viajar para além dos limites que a lingua nos impõe. Ousamos conhecer, ansiamos lutar contra as posições estáticas. Viena soube-me sempre a cultura. “Leopold
Museum”. Muito para além de uma exposição de pintura e do palácio de Inverno dos Schoburn, é algo que denotamos com uma simples passagem do olhar. Queria viver assim, para sempre, sentada naquele banco olhando o café Starbucks e
os edificios imponentes. Fotografar, viver num daqueles apartamentos que me olham coloridos, com janelas clássicas, com árvores. Passear nas ruas e tirar os jornais do dia, colocados nos postes.
Escrever, sobretudo escrever.

Nadrazi Holesovice”, Praga. Subitamente, tornei-me uma apaixonada por estações de comboio, de metro. O checo revolve-me os sentidos, faz-me confusão, mas nada me tira a beleza da cidade. A cada esquina algo de surpreendente. O olhar as casas do castelo, o rio calmo num dia frio de inverno e sentir o tempo parar sobre nós. Os arrepios no corpo. E, enquanto olhamos as águas paradas, a saudade. Sempre a saudade das pessoas e daquelas coisas para as quais já não olhamos com espanto, mas que, sem saber, são as que nos completam enquanto pessoas.

dsc05428

Praga soube-me a pouco. Agora que regressei todos os silêncios vão dar a Praga. Se regressar um dia, espero regressar à capital da República Checa e sentir de novo aqueles pedaços de história tão perto da minha pele.

Lá fora sinto sempre aquele prazer que preenche a alma e não o corpo; o prazer que é viver como queremos e fazer aquilo que gostamos. Esse prazer não tem fim e é único. Lá fora, onde a língua é estranha, tudo é incrivelmente belo. O mais simples dos cafés, dos quiosques, as pessoas. Apetece olhar aquelas fachadas vezes sem conta. Somos invadidos por
algo de inexplicável.

[Não pedi nada, tudo me foi dado. A felicidade não é aquilo
que desejamos, mas sim o que temos num determinado momento. E,
naqueles três dias, fui feliz, ainda que com melancolia]

*Do filme Lost in Translation, de Sofia Coppola

Tenho uma vontade cada vez mais crescente de fazer absolutamente nada. Descansar o corpo deixar a mente alojada num canto qualquer esquecer o coração. Até me apetecer reagir de novo.

dear-catastrophe-waitress-by-belle-and-sebastian_148241_full

Instante

Naquela noite adormeci com o corpo a tremer.  E quando o dia começou, soube que tinha chegado a hora de partir para o lugar que havia deixado meses antes.