[Pequenas coisas mudam o mundo] – Pedro Paixão, in PortoKyoto
[O que pertence ao corpo é como um rio, o que pertence à
alma é como um sonho e um vapor: a vida uma guerra e uma
viagem por um país estrangeiro] – Marcus Aurelius

Naquele fim-de-semana, quis sempre regressar ao mesmo lugar e ficar lá durante muitos instantes. Naqueles três dias quis que a velocidade fosse lenta e o movimento quase nulo. De manhã cedo já a cidade despertava nos seus sons, nos seus pequenos rebuliços. Em Ljubljana o comboio esperava por nós.
Soube naquele instante que iria recordar para sempre aquela estação. É como se ainda lá estivesse à espera do comboio, olhando as placas em esloveno,pensando em inglês, falando em português. Olhando as pessoas nas suas vidas normais, de sempre. Para elas a estação será sempre a estação. Nada demais.
No meio da linha de espera, sou como um corpo que gira à volta do sonho. A minha mente sente de tal forma aquele momento que será incapaz de o esquecer. O comboio chega, por fim. Será a viagem da minha vida e ainda não sei. É fascinante estar prestes a viver momentos únicos e permanecer na total ignorância.
Primeiro, uma paragem por Maribor. É sexta-feira de manhã e as pessoas vão de fim-de-semana. Nunca me apercebi que Ljubljana era como Coimbra, que aos fins-de-semana ficava deserta de pessoas que voltavam para as suas casas. Nunca me apercebi que Coimbra será sempre Coimbra, em qualquer lado do mundo. Estará sempre lá, objecto de eternas comparações.
Foi curto o espaço de tempo para a mudança de comboio. Graz, na Áustria, é o nosso próximo destino. De mochilas às costas ousamos descobrir coisas que são apenas fantasias, desejos, realizações. Um dia pensámos que queríamos conhecer aquele lugar e fomos à descoberta.
Graz é demasiado pequena. Da estação ao centro da cidade são alguns passos. Os eléctricos, sempre aqueles eléctricos que invadem os nossos passos na cidade. Percorrem imensas linhas com destinos já traçados. A arquitectura fascina sempre, a dimensão da cidade não importa. É uma mistura fabulosa de um quotidiano normal, por andam os supermercados, os pais com os filhos de mão dada, os mendigos a pedir e pessoas a passear na praça. Um quotidiano que
aprendeu a se inserir na paisagem, no rio, nas cores das casas, naquelas linhas clássicas que nunca aprenderão a tornar-se modernas.
Ao sabor dos tempos. Mas existem coisas que irão durar para sempre. Muito para além de qualquer velocidade.
Regressamos ao comboio. E já não vemos esloveno nas placas de indicação, mas sim a língua alemã. Igualmente
complicada, barulhenta, igualmente isenta de sentidos.

“Karlsplatz”, “Wien Sudbanhof” [Estação sul de Viena] percorrem os nossos olhos a pedirem compreensão. Pedimos desculpa, but we are lost in translation*. Completamente. Apesar disso, ousamos viajar para além dos limites que a lingua nos impõe. Ousamos conhecer, ansiamos lutar contra as posições estáticas. Viena soube-me sempre a cultura. “Leopold
Museum”. Muito para além de uma exposição de pintura e do palácio de Inverno dos Schoburn, é algo que denotamos com uma simples passagem do olhar. Queria viver assim, para sempre, sentada naquele banco olhando o café Starbucks e
os edificios imponentes. Fotografar, viver num daqueles apartamentos que me olham coloridos, com janelas clássicas, com árvores. Passear nas ruas e tirar os jornais do dia, colocados nos postes.
Escrever, sobretudo escrever.
“Nadrazi Holesovice”, Praga. Subitamente, tornei-me uma apaixonada por estações de comboio, de metro. O checo revolve-me os sentidos, faz-me confusão, mas nada me tira a beleza da cidade. A cada esquina algo de surpreendente. O olhar as casas do castelo, o rio calmo num dia frio de inverno e sentir o tempo parar sobre nós. Os arrepios no corpo. E, enquanto olhamos as águas paradas, a saudade. Sempre a saudade das pessoas e daquelas coisas para as quais já não olhamos com espanto, mas que, sem saber, são as que nos completam enquanto pessoas.

Praga soube-me a pouco. Agora que regressei todos os silêncios vão dar a Praga. Se regressar um dia, espero regressar à capital da República Checa e sentir de novo aqueles pedaços de história tão perto da minha pele.
Lá fora sinto sempre aquele prazer que preenche a alma e não o corpo; o prazer que é viver como queremos e fazer aquilo que gostamos. Esse prazer não tem fim e é único. Lá fora, onde a língua é estranha, tudo é incrivelmente belo. O mais simples dos cafés, dos quiosques, as pessoas. Apetece olhar aquelas fachadas vezes sem conta. Somos invadidos por
algo de inexplicável.
[Não pedi nada, tudo me foi dado. A felicidade não é aquilo
que desejamos, mas sim o que temos num determinado momento. E,
naqueles três dias, fui feliz, ainda que com melancolia]
*Do filme Lost in Translation, de Sofia Coppola