Abril 2009


Do errar profissionalmente perdendo uma oportunidade de ouro, por falta de rapidez de raciocinio e de experiência.

Do sentir-me responsável e num lugar que sempre quis, e que alcancei após muito tempo e conhecimento.

O ver a mudança tão perto e saber que é isso que eu quero. Sem reticências nem pontos finais, e, sobretudo, sem olhar para trás.dsc06070

vem_sentar_te_comigo_by_suspensaodossentidos1Faz sete meses que ele morreu. Hoje, na missa dada em sua alma,  a mulher grávida sentou-se no banco da igreja e respirou fundo, colocando as mãos nvem_sentar_te_comigo_by_suspensaodossentidosa barriga. A filha que irá nascer dentro de alguns meses dava-lhe valentes pontapés.

São estas pequenas coisas que me fazem pensar que, apesar de hoje em dia a morte significar cada vez mais dor e sofrimento físico, a vida continua a fazer todo o sentido, principalmente quando preenchida por momentos como este.

Avô, com estes pontapés, a tua bisneta deverá ser rebelde e lutadora como tu sempre foste.

“Podes beijar-me, claro. Podes entrar em mim como um furacão. Podes lamber as minhas pálpebras fechadas. Mas eu não vou estar lá. Eu vou estar com o meu amor que está longe, tão longe que é aqui mesmo ao meu lado, dentro da minha garganta, por debaixo das minhas unhas, alimentando-se do meu sexo doce. Sim, aqui e agora, enquanto te distrais com a tua lingua na minha boca. Gostas, não gostas? Ainda hás-de gostar mais. Peculiar condição”

“O mundo é tudo o que acontece”, Pedro Paixão

Não existe razão nesta triologia – e tudo o que não é racional, não merece comentários de todos os outros [e que também vivem, de igual modo e com igual sofrimento, nesta triologia, sem saberem o que fazer dela, como viver com ela. A moral, aqui, não faz falta, nem possui sentido].

“Tu és muito fixe, mas ainda não sabes. Tens de olhar ao espelho e perguntar ‘quem sou eu?’. Um dia vais descobrir”

Será?

Resolveu ir fazer uma tarefa doméstica para não se sentir culpada de nada. Resolveu colocar aquela música ao piano para chorar as dores de nada. Fugiu daquele lugar para esquecer o nada. Queria fazer tudo e nada sabia do que estava a fazer. Procurava neles compreensão e paz e o que encontrava era nada. Fugia da realidade a passos largos, corria corria sem nunca abrandar o coração a acelerar e, no fim de contas, nada, absolutamente nada.

[Hoje não me abracem nem perguntem porquê]

Começa subtilmente, de mansinho, com uma música que roça o cómico. Demasiado leve. E depois cresce, cresce, cresce, a cada minuto que passa. Subitamente a música torna-se séria. E então aí encontramos a perfeição e a beleza estampados numa tela de cinema. Baseado naquela que é, talvez, a obra-prima do escritor Checo MilanKundera, A insustentável leveza do ser ganha aqui novos contornos pela mão de Philip Kaufman. As linhas descritas nas páginas ganham vida própria, as personagens ficam ainda mais belas, a história entra na nossa pele. Tomaz (Daniel Day-Lewis) é um jovem médico que vive na Praga de 1968, dividido entre duas mulheres, Tereza (Juliette Binoche) e Sabina (Lena Olin). Juliette Binoche encarna, com a sua Tereza, uma timidez que não choca, uma leveza de espírito que fascina, um erotismo que surpreende. Já Sabina é o oposto: é a mulher nua do chapéu, que faz amor em frente a um espelho e que conhece Tomaz como ninguém: os seus desejos e medos enquanto homem.E a história desenrola-se assim, num equilíbrio de emoções, nos prazeres que causam dor. Não é apenas a história de um triângulo. A Insustentável leveza do ser é amor misturado com história, com arte, com cultura. Não é apenas um simples filme, é um documentário ficcionado. E esse detalhe é facilmente denotado na forma impressionante como Kaufman faz a ligação entre as personagens e a Primavera de Praga. Tereza e Tomaz parecem ser figuras presentes de uma revolução, a fotografia é simplesmente perfeita. Não fosse a revolução, não fossem aspectos autobiográficos do próprio MilanKundera misturarem-se com as vidas de Tomaz e Sabina, não fosse um simples espelho e um chapéu, bem como as fotografias de Tereza, o filme seria apenas uma tela preenchida com lugares-comuns, e o livro do escritor checo ganharia contornos a roçar a vulgaridade. Mas, felizmente, os simples pormenores ajudam sempre a criar as coisas mais belas.

[Do filme A insustentável leveza do ser, de Phillip Houfman]insustentavel-leveza-do-ser_tomaset

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Deste lugar tão efémero e tão intenso. Destes dias de profunda descoberta.

E saber, hoje, que este lugar mudou por completo a minha vida.