Junho 2009


Quando passo na rua e te encontro por acaso, após um dia inteiro em que as nossas palavras mal se cruzaram. E não consigo, não quero falar contigo. Sinto que já não te posso recuperar e que, sobretudo, não queres.

Eu não sei falar de amor.

[Portanto, não falem da minha ausência. Incomoda-me a praça pública de uma coisa que é minha e absolutamente minha]


Ficou um pouco mais egoista, um pouco mais umbiguista, a criticar o que um dia lhe calhará na rifa, a  irritar-se com as pessoas que mais ama, sem saber ouvir  e, muitas vezes, a pensar que sabe viver. Respira  quando está sozinha a fazer o que quer e ainda assim sente uma imensa culpa por já não sentir a necessidade de estar e a identificação de valores.

Acho que estou profundamente errada e com o meu mundo ao contrário, mas ainda assim sei que sou mais feliz assim.

Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura

[José Carlos Ary dos Santos]

Deixei-me de contratempos. Agora, escrevo sobre a realidade e nunca a minha vida foi tão concisa, batida a dois tempos cruzados. Agora, é isto e acabou. Não tenho tempo para mais nada a não ser escrever. Não me venham com coisas que eu não tenho tempo. Gostava de estar e de sentir coisas absolutas, de ter tempo, de olhar o rio sem me preocupar com as horas. E no entanto continuo a não usar relógio, prefiro ir ao sabor do tempo. Aceitar as coisas a ter o mínimo medo possivel, sobretudo encarar o touro de frente. Se não sei, aprendo de alguma forma. Se sinto, azar, tenho de deixar de sentir e viver assim. Se me sinto sozinha, que se lixe, arranjo coisas para fazer e ocupo-me com coisas úteis. Palavras, músicas, essas coisas. A vida não pode ser vivida na absoluta insensatez.

Tenho demasiadas saudades daquele país, aquele país. Onde sonhava sem saber que horas eram. Em que os meus sonhos puderam ter um corpo e um rosto. Viajei em comboios de loucura, de razão, de tudo e de nada, de jogos de cartas, de amizades, de pessoas. Hoje, acho que deixei de viajar. Deixei de ter sonhos enquanto caminho pelas ruas. Enquanto crio ruas. Olhar e sorWaiting_by_Suspensaodossentidosrir porque o via. Receber de volta o sorriso? Não.

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Porque não sei viver com o meu próprio tempo. Magoei-me outra vez com a minha história. Desculpas a mim própria. Não perdoo tamanho erro, não consigo. Por isso vou embora. Não aguento mais. Quero colocar amor em todas as coisas, quero a resposta do outro lado e apenas encontro uma rua vazia. O pior: com olhares e rostos estranhos, que não consigo amar. São os tempos desencontrados.

Por isso quero viver tudo ao mesmo tempo. Fazer tudo e experimentar tudo. Não quero parar para pensar na falta dos meus sonhos. E isso é uma coisa só minha. Calem-se, por favor, tentando deixar-me aqui. Eu não posso ficar aqui, eu quero fugir.