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Tenho o ócio à flor da pele e o desejo escondido num canto que já não existe.

[Ela pensa que falo com as massas mas se o faço é apenas comigo.]

Se já não existes, se já morreste, se não vales nada, porque é que ainda te quero escrever cartas? É como falar com um fantasma e querer contar toda uma vida. Dar-se a conhecer plenamente, além do corpo. Esquecer o corpo tapar os olhos matar a mente. O que existe para lá do corpo? Nunca saberemos.

Descobri que a televisão é um mundo oco. Olho para lá e é como se não visse, é como se não pensasse.

Leio a última entrevista do Mário Cesariny e penso que já não existem homens assim. Já ninguém faz manifestos a gloriarem a luta e a revolução – tudo se subjuga a tudo, nada existe além do normal. Era o tempo dos jornais, do papel verdadeiro. Eu quero ser jornalista nesse tempo. Será que posso?

Vivemos num século puramente tecnológico – e nem imaginas quantas vezes me apeteceu escrever numa máquina de escrever ou num molleskine.

Não sei como consegui passar por estes dois poemas, senti-los imensamente na pele e agora não ter nenhuma palavra, zero de literatura.

Tenho um imenso medo da coisa mais absurda do mundo – elas, meu caro, não deverão ter medo.

Gostava de saber para que me serviste, para lá da coisa absurda que é um corpo, a paixão ou o desejo.

A língua italiana é uma das mais belas do mundo, tal como a língua francesa. Juntas, são o paraíso. As canções e os textos ganham outra dimensão. Mas o português não se esquece. Apenas tive saudades dele lá fora – desejei-o, amei-o, queria ouvi-lo e não podia. Odiei o esloveno. E quando fui a Itália tive o desejo saciado – sobretudo do sol, do tempo, do mar.

Hoje senti-me presa na minha própria casa, ainda que ninguém me tenha agarrado ou proibido de alguma coisa (acho que o meu problema é ter medo da proibição, de não conseguir voar. Alguma vez te proibiram de voar?)

Foste o meu primeiro canalha – o primeiro que não valeu mesmo nada, nada. Mas foste também o que me fez crescer.

Vou deixar de escrever palavras soltas sobre ti. Acho que acabei de descobrir para que serviste.